2006-10-23

Episódios da vida académica 3

Hoje consegui finalmente ter notícias do Miguel. Há já três dias que tento entrar em contacto com ele para saber o resultado duma operação delicada a que submeteu uma das suas vistas. A operação decorreu na passada quinta-feira numa clínica algures em Barcelona. Valeria a pena explicar porque é que o Miguel acabou por ser operado em Barcelona, mas isso daria um outro "post".

Estava convencido que para aproveitar as melhores tarifas aéreas, o Miguel regressaria no Sábado ou no Domingo. Por isso, tenho tentado ligar-lhe desde Sábado para saber notícias da sua operação. Ao fim do terceiro dia, atendeu-me a sua sogra, uma senhora simpatiquíssima que me explicou que hoje mesmo – segunda-feira – o Miguel voltou a ser visto pelos médicos catalães. Daí que o regresso seja só amanhã. Parece que a vista estava já com uns parcos 20 por cento de visão. Deverá recuperar para os 40 por cento, havendo esperança duma evolução que pode ser ainda mais favorável. A intervenção no outro olho fica aprazada para Janeiro. Sinto "mixed feelings" sobre os resultados mas, apesar dos números, parece que são animadores.

Escrevo estas linhas porque criei uma relação muito próxima e empática com o Miguel que vai muito além duma convencional relação orientador-orientando. A primeira imagem que tenho dele no Instituto Politécnico de Leira foi a de um "aluno desconectado". Achei-o desconectado porque tenho ideia de o ver entrar tardiamente numa das primeiras aulas, com o pensamento noutro sítio e noutros problemas. Depois comecei a vê-lo atento, demasiado atento. Tanto atento que um dia lançou-me uma questão em que claramente me quis testar. Foi um daqueles testes que os alunos mais traquinas gostam de fazer aos seus professores para testarem até que ponto eles dominam a matéria. Quando isto é feito ao nível do mestrado, geralmente a "casca de banana" é mais escorregadia, mais subtil, e não é raro que um ou outro professor vacile. Alguns escorregam mesmo e estatelam-se. Percebi a sua intenção e, como me compete, procurei responder-lhe o melhor que pude. Hoje o Miguel reconhece que o fez propositadamente para testar se eu não seria só mais um professor e diz-me que passei o teste.

Passados largos meses, finda a parte escolar, o Miguel abordou-me sobre a possibilidade de orientar a sua dissertação de mestrado. Quando me disse que a sua primeira ideia era investigar na área de contabilidade pública, torci o nariz. Disse-me com a maior das sinceridades que os professores daquela área não respondiam às suas solicitações e por isso ele gostaria de enveredar por outra área. Fiquei convencido que neste contexto e ponderando os seus interesses iniciais de investigação, a probabilidade de eu o orientar seria quase nula. Depois contextualizou as suas intenções com base num ensaio que tinha realizado em estratégia, a disciplina que leccionei nesse mestrado. Apresentou-me o seu projecto, refinou ideias, trabalhou o projecto. O processo decorreu bem, muito bem. Tão bem que hoje o Miguel é mestre com uma dissertação realizada em pouco mais de um ano. Concluiu o mestrado em Setembro passado com uma dissertação que pessoalmente considero excelente.

Já trocamos impressões sobre a hipótese de prosseguir estudos de doutoramento, mas a verdade é que por um lado o reconhecimento profissional destes graus é escasso, praticamente inexistente, e por outro lado os custos das propinas e de outros investimentos pessoais num projecto desta natureza são demasiado elevados. Mas o certo é que o Miguel tem demonstrado interesse em continuar a investigar e, mais importante ainda, mostra motivação no estudo. Pessoalmente, também gostaria que o Miguel não terminasse as suas pesquisas, nem que isso implique tornar-se um investigador descomprometido em "part-time". Mas conectado. Por tudo isto e para tudo o de mais importante na vida desejo fortemente que tudo corra bem com a sua recuperação. Certamente, amanhã, depois de regressar de Barcelona voltarei a ligar para lhe dar um abraço.
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